Como ser criativo em tempos de crise?

Instabilidade política, problemas econômicos, corrupção, criminalidade. É realmente uma pena que palavras como essas tenham se naturalizado tanto, a ponto de parecer que não há mais saída. Embora a palavra crise, do latim krisis, que quer dizer sentença, ameaça ou decisão, já faça parte do cotidiano brasileiro, vemos muita gente acordando todos os dias para fazer o que acredita, para fazer o bem e para construir novas pontes. E sim, são elas que me inspiram a ter um cotidiano mais criativo, mais simples e mais humano.

Eu costumo passar todos os dias em frente a uma faculdade, onde, na calçada, tem uma moça que sempre vende brigadeiros de vários sabores. No dia que eu comprei o meu preferido, ela me entregou dois papéis: um cartão fidelidade e um que ela pedia sugestão para novos sabores. Achei deliciosamente criativo ela pedir isso aos clientes. E mais: toda sexta-feira, ela fazia o sabor mais votado pelos fregueses. Então, enquanto muita gente pensa que a criatividade é quase uma fagulha inalcançável, há pessoas com soluções simples na palma da mão. E que sim, fazem acontecer e realizam para que o seu negócio se torne um verdadeiro diferencial.

A crise é a convocação para a parceria e o prenúncio da oportunidade. São em tempos como estes que costumamos nos dar as mãos e ajudar-nos uns aos outros a construir algo melhor e é por meio da colaboração que conseguimos ter novas ideias, desbravar universos novos e genuinamente criativos. A criatividade não vive na Arcádia grega tocando lira com os deuses – ela está no meio da rua, no meio da gente, na saída da escola, em um passeio com o cachorro. O que não dá é para desanimar e deixar de exercer a criatividade por falta de dinheiro, por exemplo.

Eu diria até que as soluções mais criativas que eu conheço foram criadas em cenários altamente desafiadores, por pessoas que não tiveram medo e puderam contar com uma rede de apoio e acolhimento para as suas ideias. Mas, ainda que você não possa contar nem com isso, não desista. Continue ampliando o seu repertório criativo, colhendo fontes, informações, dados e conversando com as pessoas. Ou, simplesmente praticando a “escutatória”. Em qualquer lugar há uma história esperado para ser captada. Exemplo disso é um restaurante que resolveu contratar apenas avós para cozinhar, afinal, somente elas poderiam fazer uma autêntica “comida de vó”. Posso assegurar que essa ideia deve ter surgido depois de alguém ter passado a tarde inteira na casa da vovó comendo guloseimas e ouvindo boas histórias.

Insisto muito para que fiquemos sempre atentos. Ser criativo não depende de recurso financeiro algum. Tem muito mais a ver com sensibilidade, vontade de transformar a realidade, determinação, bondade e muito trabalho. Qual é o custo, por exemplo, de uma caminhada em um parque próximo com um bloquinho na mão nas primeiras horas da manhã? Há tanto para ver e enxergar beleza na simplicidade que a crise não pode jamais ser um fator limitante para a vida criativa. Se há mesmo tantas boas ideias só esperando para sair do papel, por que não começar agora? E procurar parceiros, editais de fomento e tantas outras oportunidades para você, de fato, deslanchar? Siga com coragem, não naturalize o mal dos dias e nunca tenha medo de ser quem você é.

P.S.: A maioria dos grandes negócios nasceu em momentos de crise ou por necessidade. Acredite na sua ideia, trabalhe muito e faça acontecer.

Abraço,

André Castilho